Pelo telefone

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N.

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a passagem de Ano, de 2015 para 2016, longe dos megaeventos da Praça Cairu, em Salvador, ou da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, promovidos pelo  grande capital para faturar muitos cobres e esbanjar marketing cultural, pedi ao simpático grupo de samba para tocar “Pelo Telefone”, de Donga, pois sabia que a composição estará fazendo, em novembro deste ano que se desponta, o seu primeiro centenário.

Na verdade, arrisquei, pois não sabia do envolvimento do grupo com a história do samba. Para minha grata surpresa, os músicos não só sabiam cantar, como um deles ainda fez uma breve alusão ao ano comemorativo.

Embora Donga (1890-1974) – que tinha nome de pia Ernesto dos Santos -, tenha gravado o primeiro disco no ano de 1917, consta nos registros da Biblioteca Nacional que a composição foi registrada em 27/11/1916. A partir daí, pode-se considerar a data oficial/cartorial de nascimento do samba no Brasil, gênero musical de fortes laços com danças africanas, mas nascido no Recôncavo baiano.

Em “Samba da Bênção” o poetinha confirmou o referido berço:

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Já li que “Pelo Telefone” teria sido composta em um badalado terreiro de candomblé do Rio, bastante frequentado pelos músicos da época, e que, originalmente, teria sido registrada em nome de Donga, sendo posteriormente acrescentado o nome do jornalista Mauro Almeida. Mas há também quem prefira situar o nascimento de “Pelo Telefone” numa roda de samba com a participação de vários “bambas” do Rio de outrora.

O fato é que há cem anos a indústria fonográfica e o grande capital ainda não tinham colocado seus olhos de cobiça nas modestas manifestações da gente simples e espontânea do sertão baiano e dos morros cariocas, sem esquecer de outros rincões brasileiros, que tinham por propósito celebrar a amizade, a pândega, o bom humor, além cantar as mágoas vividas e imaginadas…

Em cem anos, muita coisa mudou, muita grana passou pela ponte da acumulação desigual e muitos intérpretes/compositores transformaram-se em valiosas peças azeitadas das engrenagens do modo de produção vigente, regiamente remuneradas e transformadas em estrelas globais.

Em um século, a indústria cultural varreu toda a inocência do mundo. Ou quase toda…

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

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Samba 2016

 

 


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