Por um muro mais alto!

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O MURO 2016

Alheio ao meu papo com a Vaca Tatá, o Saci foi construindo um muro entre ele e nós…

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

Ag-cap.

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simples leitura de uma troca de mensagens entre colegas da lista “debates-l”, de docentes da UFBA, suscitou na Vaca Tatá algumas prosaicas filosofices. Com ar grave de bovina circunspecta, e mão no queixo semelhante ao “Le Penseur”, de Rodin, ela assim se manifestou:

– A dar crédito ao que filósofos humanos urdiram com tênues fios de neurônios e de ágeis sinapses, qual Hegel e Marx – sendo que o segundo superou o primeiro em qualidade do pensado -, esse modelo de ciência que aí está é histórico, assim como o modo de produção capitalista o é. Isto posto, qualquer modelo que subsidie bomba atômica, bomba H ou outros artefatos desenvolvidos para uns poucos subjugarem a maioria, não passa de arremedo da Ciência com cê maiúsculo, cujo propósito é emancipar a humanidade desse terrível período pré-civilizatório em que os homens e as mulheres se encontram atualmente. Tudo isso não passa de demandas de uma ordem social mesquinha e incipiente, em que um indivíduo precisa explorar  o outro para viver.

Sendo assim, é natural que alguns cientistas e pesquisadores babem pela grama verde do vizinho, ainda que artificial.

Achei graça do modo como a Vaca Tatá, ainda que bovina, fala das coisas humanas com tanta desenvoltura. Mas, ao mesmo tempo, afligiu-me a ideia de sermos, nós brasileiros, afetados pelo modelo de ciência reprodutora do capital que deforma – ou pode deformar, dada a sua eloquência -, a mente dos nossos valorosos guerreiros, que voltam de outras plagas, com o sério risco de se tornarem totalmente imprestáveis para as nossas lides diárias, qual os jovens que foram estudar na “escola dos brancos”, da conhecida Carta das Seis Nações.

Mesmo considerando – claro! -, extremamente importante a ruptura com a endogenia cultural (artístico-científica) e acreditando fervorosamente na solidariedade entre os  povos do mundo…

Temendo que a Vaca Tatá não tivesse conhecimento do famoso escrito de natureza epistolar, anexei-o ao presente texto. Ao vê-lo, ela sorriu, e aquiesceu com seus potentes cornos:

– Legal essa carta. Já está um tanto manjada, mas o que  abunda não vicia, como gostava de dizer o saudoso Prof. José Arapiraca, da FACED.

A Carta das Seis Nações

Há muitos anos nos Estados Unidos, Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os Índios das Seis Nações… Logo depois os seus governantes mandaram cartas aos índios convidando alguns dos seus jovens para estudar nas escolas dos brancos. Os chefes responderam agradecendo e recusando…

Eis um pequeno trecho :

“…Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração.

Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos aos saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa.

…Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou conselheiros.

Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão, oferecemos aos nobres senhores de Virgínia para que nos envie alguns de seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens. (Carlos Brandão – O que é Educação – Ed. Brasiliense, 1985, p. 8-9)

 

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Prezados,
Li a matéria escrita por Rogério Cezar de Cerqueira Leite e compartilhada pelo Prof. Roberto Guimarães. Como em geral eu não confio e quase nada que leio na internet, sobretudo quando envolvem estatísticas, entrei na revista Nature e fiz uma busca pelos referidos “dois artigos publicados recentemente”. Não encontrei nada (pelo menos não recentemente). Talvez eu não tenha feito a busca corretamente e um colega melhor informado possa me ajudar.

Não tenho dúvidas de que a ciência praticada no Brasil está aquém dos melhores centros e das demandas da nossa sociedade. Mas lembremos que há pouco mais 20 anos praticamente não havia investimentos de grande volume em pesquisa e pós-graduação. A universidade brasileira esteve paralisada por décadas. Há poucos anos a cultura da pesquisa tem começado a mudar, com investimentos em infraestrutura, fomento e bolsas para o exterior, intercâmbio internacional. E com um programa de avaliação profundamente rigoroso. Demos passos…

Isso não pode servir de desculpa. Mas há uma contradição escandalosa: um dia eu leio aqui nesta lista as pessoas se lamentarem que a busca de produtividade academia é algo estressante, desumano, absurdo; no outro dia, eu leio que as pessoas acham a universidade e a ciência ineficiente. Essas coisas não batem. Vivemos um tipo de bipolaridade, para usar uma dessas expressões da moda.

Já tive a oportunidade de viver períodos em três universidades americanas. Os caras não têm dúvidas do que estão fazendo na universidade: querem produzir ciência de grande impacto, querem criar novas tecnologias, querem os melhores professores e melhores estudantes… Quem não gosta do ritmo alucinado não tem espaço.

Não estou dizendo que eles estão certos nisso (não estou expressando um juízo de valor). Só estou dizendo que os caras sabem o que querem e fazem tudo para alcançar o que querem.

E nós, o que queremos, afinal?

Waldomiro Silva Filho

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Colegas,

Achei interessantes esse pequeno comentário e compartilho com vocês. AQUI

Roberto Guimarães

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8 Respostas to “Por um muro mais alto!”

  1. dvinha Says:

    Recebido por e-mail:
    ————————————-

    kkk! essa vaca tatá é f*! conheço um desses “valentes guerreiros” que se gaba em sala de aula de ter ido em assembleia apenas uma única vez! disse que nao tinha mais saco nem para ouvir a palavra sindicato!!!

  2. osaciperere Says:

    Publicado na “debates-l”:
    ————————————
    Felizmente a discussão dessa lista tocou num ponto interessante e importante para a Universidade, principalmente a nossa. O que caracteriza uma universidade é a produção de conhecimento. A oferta restrita de ensino deve estar no âmbito de centros universitários e faculdades isoladas. Uma das exigências para assinarmos um contrato de DE é a obrigatoriedade de atuação no ensino, pesquisa e extensão. Infelizmente, nas universidades brasileiras, a atuação docente não é questionada.
    A produção de conhecimento é universalmente avaliada da mesma maneira. No caso de pesquisa científica avalia-se a produção na forma de artigos publicados ou, no caso da pesquisa tecnológica, do produto desenvolvido.
    Diferentemente do postado anteriormente pelos colegas, o Brasil produz pesquisa científica nas universidades desde sua criação. Todavia, mais fortemente a partir da década de 1950-1960. Pesquisa científica não foi uma benesse do lulopetismo.
    O que o artigo da Nature, de 2013, indicou é que a despeito dos recursos públicos e privados aplicados para o desenvolvimento da pesquisa brasileira, o resultado é questionável no âmbito da qualidade. Qualidade esta que é determinada pelas métricas internacionalmente estabelecidas e universalmente utilizadas. Quando li este artigo da Nature e da opinião do ilustre Prof. Rogério Cerqueira Leite, entrei no Scimago e fiz um levantamento da qualidade de nossos artigos. Em 1993 (ano que iniciaram o tabelamento dos dados) o Brasil ocupava o 33º lugar em produção quantitativa de artigos científicos. Porém, a qualidade dos mesmos em termos de impacto estava na posição 13. Em 2013, o Brasil subiu para 13º lugar em publicação de manuscritos. Todavia, a qualidade caiu para 34º lugar! O que significa isso? Na minha opinião, pesquisamos mais, mas não de forma melhor. Ou seja, inchamos e não evoluímos com o tempo, assim o artigo da Nature tem razão de ser.
    As revistas de prestígio não têm preconceito contra artigo brasileiro, basta ler os editoriais do final ou início dos anos. Eles informam que cerca de 90 % dos artigos submetidos são rejeitados. Não me parece que todos sejam de brasileiros.
    Concordo com o colega que diz que a Universidade tem que escolher o que quer ser. Isso é primordial. Espero que os colegas queiram uma universidade de qualidade, internacionalmente reconhecida. Nos últimos 10 anos a UFBA pulverizou os recursos para pesquisa, ao invés de fazer projetos ambiciosos, divide-se o projeto em n subprojetos que só expandem o sistema, mas não dá norte ao desenvolvimento de uma pesquisa de qualidade. Todavia, todos ficam felizes pois o processo foi “democrático”.

    Jorge M. David
    Instituto de Química

    • osaciperere Says:

      Prezado Jorge

      Obviamente, todos os artigos recusados sem nem ir para arbitragem não são de brasileiros. Não haveria como ser. Logo, não tem via de argumentação plausível por essa direção.

      A questão é a distribuição de tal parecer peremptório do editor e a probabilidade de ter tal parecer a depender da origem do artigo. Há estudos mostrando que há vieses importantes nesse tipo de juízo, que é contrário a tudo que se preconiza na avaliação acadêmica de qualidade. É arbitragem não-cega de uma pessoa, não é razoável.

      A comunidade acadêmica brasileira precisa avançar na compreensão de relações centro-periferia e das relações pós-coloniais na academia. Outros países -latino-americanos têm dado mais atenção ao problema do que a gente. Não adianta fingir que não há problema algum nesse camp.

      Abs
      Charbel

    • osaciperere Says:

      Prezado Jorge,

      Muita lucidez o seu texto apresenta.

      Mas, não tenho ilusões, o que dá “IBOPE” por aqui é uma Universidade Popular, Democrática e Socialmente Referenciada. Muita adjetivação que subtrai a substância.
      E la nave va.

      Caio Castilho

  3. osaciperere Says:

    Publicado na “debates-l”:
    ————————–

    A saída para o Rogério Leite deve ser a privatização das universidades ou a rendição à prestação de serviços.
    Chega a ser ridículo um cientista escrever texto como este, ignorando as relações centro-periferia na comunidade científica e as dificuldades de acesso a revistas como Nature, Science etc. 99% dos artigos recebem o parecer do editor (sem arbitragem cega, com plena subjetividade) dizendo que o trabalho tem mérito mas não atende aos interesses dos leitores do periódico, e daí nem vai para arbitragem. Mas o pesquisador tem uma saída: chama um nome tarimbado da comunidade científica, nem muda o paper e manda de novo, aí passa pelo editor e vai para arbitragem. Conheço de primeira mão alguns casos assim. Espanta-me um pesquisador como o Rogério Leite não entender como funcionam as relações sociopolíticas na comunidade científica. Ou será que espanta mesmo? Cientistas naturais em geral nada entendem de história, filosofia e sociologia da ciência, e, mais, acham que não devem entender. Espanta-me o Rogério Leite não saber como funciona a arbitragem nas revistas que ele caracteriza de boca cheia como de excelência, em editorial da Nature, que é uma dessas revistas… Ou melhor, não me espanta não… faz tempo que leio bobagem na coluna dele….

    Abs
    Charbel

    • osaciperere Says:

      Publicado na “debates-l”:
      —————————————-

      Prezados Jorge e Charbel,

      Jorge, foi excelente o levantamento que você fez. Isso ajuda derrubar o discurso fácil (ou de elogio ou de crítica) e nos leva direto ao nosso problema – que, por sua vez, não está ligada apenas a políticas governamentais, mas a decisões internas à nossa universidade. Isso diz respeito à nossas prioridades, escolhas, perfil de concurso, definição de representantes nos órgãos colegiados etc.

      Charbel, tenho uma opinião parecida em relação a Rogério Leite e já não perco meu tempo com sua coluna.

      Waldomiro

  4. osaciperere Says:

    Razão Instrumental
    Há quem diga que a ordem burguesa tem como um dos seus fundamento a razão  instrumental.
    ——————————–
    Circulou na “debates-l”:

    Prezado Jorge,

    Muita lucidez o seu texto apresenta.

    Mas, não tenho ilusões, o que dá “IBOPE” por aqui é uma Universidade Popular, Democrática e Socialmente Referenciada. Muita adjetivação que subtrai a substância.
    E la nave va.

    Caio Castilho

  5. La nave va! | Blog do Saci-Pererê Says:

    […] Há quem acredite na possibilidade de a razão instrumental ser superada, considerando o que o real está em permanente movimento. Leia mais AQUI. […]

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