Produção acadêmica significativa

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Para o Saci, ingênuo é quem pensa que no templo sacrossanto da academia não há estratificação social, de modelito unissex…

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

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leitura do texto do pesquisador Rogério Cezar de Cerqueira Leite, que recentemente ocupou os espaços das redes sociais, deixou o meu amigo de gorro vermelho e pito reflexivo e, logo após, um tanto questionador. Não questionamentos tão contundentes como alguns elaborados por professores da UFBA, que pediram para morrer com o que leram. Digamos que os do Saci foram apenas médios. Nada mais do que isso.

Depois de algum tempo caladão,  meditabundo, ele desembuchou:

– Esse  pesquisador, chefia, usando o metro preciso do Lattes, não tem um currículo invejável?

– Isso lá tem, Saci!

– O cara é autor de quase uma centena de artigos em revistas especializadas, foi editor de uma cacetada de publicações internacionais, inclusive de inúmeros livros, foi citado quase três mil vezes em produções científicas de pedigree, doutorou-se na Sorbonne, ganhou comenda internacional, foi editor disso, vice-presidente daquilo, dirigiu aqueloutro e o escambau. Muito provavelmente, o Currículo Lattes dele é tão recheado que se alguém se arvorar a conhecê-lo integralmente, vai fazer calo no dedo, depois de detonar uns quatro ou cinco “mouses”. Ou seria mice?

– De fato, Saci, o doutor Cerqueira Leite não é pouca coisa, não!…

– Pois é! Aí é que vale questionar: “Quem é grande, quem é pequeno, quem é anão na academia? De que lugar fala cada pesquisador?”

– Ou qual a produção de conhecimento válida, não é Saci?

– Isso chefia! Pense comigo! No caso da UFBA, qual o critério que se tem para medir a produção de cada um? Ou, ainda, que área deve ser mais aquinhoada com os recursos financeiros e qual a que deve ocupar a posição de lanterninha? As Exatas, ou as Naturais, valem mais do que as Humanas? E a área da Saúde, como é que fica?  E as Letras, e as Artes, que posição irão ocupar num gráfico eventual de um organograma hierárquico acadêmico? Ou, então, se vale adotar essa velha lógica da exclusão…

– É vero Saci! Quem se dispuser a pensar de forma aprofundada sobre o assunto, certamente vai ter que dar muito trato à bola.

– Pense no que concerne à construção do conhecimento humano e sobre a não linearidade das ocorrências do real, que é caótico, dissipativo, segundo o Prof. Felippe Serpa, de saudosa memória. De cara, me vem à mente o caso das ervilhinhas de Mendel.

– Gregor?

– Sim! Gregor Mendel. Fico pensando se a contribuição que aquele noviço agostiniano deu

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Para o Saci, Mendel só pensava naquilo…

ao estudo da hereditariedade não foi pelo fato de não ser muito chegado a rezar… Talvez aquele menino, filho de modestos fazendeiros, lá pras bandas do que hoje se conhece como a República Tcheca, não dotado de muitas posses, tenha entrado no convento mais para usufruir um pouco das possibilidade do estudo e de um certo conforto, do que por vontade de servir a Deus e ao Reino dos Céus. Talvez a vida monótona daquele mundo silencioso das orações o tenha levado a se distrair um pouco em cruzar ervilhas… E a gente sabe o que deu essa inocente brincadeira para a genética… Para o bem ou para o mal, se não me deixar mentir os transgênicos da Monsanto e de outras congêneres capitalistas!

Não pude deixar de rir diante daquela “hermenêutica biográfica” sacizesca. Perguntei-lhe aonde pretendia chegar, ou mesmo se poderia traduzir aquilo.

– A lugar algum, chefia! Qualquer exercício teleológico humano, se me permite o pleonasmo, é um mero ato volitivo descolado do real, já que as possibilidades de precipitação dos eventos cósmicos são ilimitadas… Deste modo, como eu posso ter um alvo exato? Os atos sêmicos são meros impulsos dos seres conscientes dotados de supostas certezas! “Os homens fazem a sua própria história”, dizia o velho barbudo no 18 de Brumário,  “mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”.

Diante do meu ar perplexo, ele prosseguiu.

– Não é para ser traduzida essa minha fala. Se o fizesse, cairia na mais abjeta obviedade. Se você entendeu, entendeu; se não entendeu, passemos adiante.

Não é preciso dizer que o pilantrinha pouca importância deu ao meu ar de indignação, frente a sua pretensão de estar fazendo alta filosofia.

– Quero que me responda uma coisa, chefia, o que é mais importante para a sociedade: um trabalho sobre o ceticismo filosófico clássico, ou a descoberta de um biocombustível que não lança no ar resíduos tóxicos; o estudo sobre os sistemas de informação em seres vivos com base nas teorias de Charles Sanders Peirce, ou a produção de um documentário sobre o baiano Batatinha e o samba Oculto na Bahia; um projeto arquitetônico voltado para as encostas de metrópoles habitadas por população vulnerável economicamente, ou uma exposição virtual de charges sobre a ordem socioeconômica injusta; uma investigação acadêmica sobre a gramática das cores em Wittgenstein, ou um TCC sobre o léxico da literatura popular de Patativa do Assaré; uma gincana de Matemática Pura, ou uma Oficina de Capoeira; uma vacina para imunizar humanos do vírus da dengue, ou do Zika Vírus, ou o estudo das “plásticas sonoras” do professor, músico e compositor Walter Smetak; um congresso sobre Direito Constitucional, ou uma palestra sobre a homofobia?

– Que maluquice é essa, Saci? Claro que tudo o que você falou aí é importante para a sociedade! Como muito bem disseram os Titãs, “a gente não que só comida”. Só um glutão, um insensível, diria o contrário…

– Pois é, chefia! É essa a minha grande dúvida! Se tudo é tão importante assim, lindo, justo, maravilhoso, altruísta, racional e abnegado no mundo acadêmico,  por que publicar numa revistabox revista.jpg americana vale mais do que numa do Zaire, se o conhecimento deve ter validade universal? Porque um curso feito em um país do primeiro mundo abre as portas para o sucesso profissional, enquanto um diploma oriundo de países emergentes, fecha-as? O que há de sincero na academia, de autêntico, de humano?

Preferi não arriscar uma resposta, dado o complexo de complexos que formam a realidade. Lembrei-me das conjuminâncias recentes da Vaca Tatá (Por um Muro Mais Alto) a respeito do modelo de ciência praticada na ordem/desordem capitalista, na qual estamos todos, sem exceção, mergulhados até o pescoço: a Bahia, o Brasil, o mundo. Sob a batuta do capital, evidentemente. Pensei no espaço acadêmico que temos hoje,  e o que, talvez, ainda poderemos construir um dia, solidário, generoso, inclusivo, sociocêntrico, que faculte de cada qual, segundo suas capacidades, e a cada qual, de acordo com suas necessidades.

 

 

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