– Quando um amigo se vai…

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Para o Saci, na mesa da vida, sempre há o lugar vago dos que amamos, pois partiram para uma outra dimensão incognoscível…

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

O.

meu amigo Saci sempre está a me advertir: “A morte é uma verdade que, permanentemente, nos ronda e nos desconforta”… Dessa vez a notícia chegou por e-mail, e, depois, por mensagem via celular. “Seu Louro” se foi. De alguma forma, já esperávamos. De longe, acompanhávamos o seu calvário. Ele próprio, talvez, nem desconfiava que o seu fim estava próximo. Certo ou não, a família preferiu poupá-lo de saber que estava prestes a atravessar o portal que não tem volta. A pertinaz doença, como se dizia no passado para não mencionar a palavra “câncer”, venceu-o, afinal. Mas não que ele tivesse capitulado de mão beijada. Que o digam as perfurações que tivera em um dos pulmões, ocasionadas por um acidente de moto, que sofrera anos atrás…

Ele não era homem de entregar os pontos sem lutar. E isso aprendera ainda quando criança, quando tivera de se virar em sete-instrumentos para superar a condição de menino pobre. Quem o conheceu sabe que “se virou nos trinta” como pôde. De tratorista a “agrônomo rábula”; de reservista a músico; de técnico em sementes a torneiro mecânico. Eu sempre o julguei um Da Vinci do sertão. Nada quebrado resistia à sua habilidade mecânica. De relógio cansado de TL a braço partido de cadeira de dentista. Ele tinha o dom de ressuscitar objetos precocemente encostados. Ele tinha o encanto de dar vida a coisas inanimadas.

Quem não o conheceu e imaginar seu apelido – Louro -,  por atributos fenotípicos arianos, erra feio. “Louro” originou-se de Lourival, que era o seu nome de pia. Aliás, ele era mais para sarará, como se costuma dizer no Brasil. Seu pai era branco e sua mãe negra. De sua genitora, herdara a altivez e a garra para o trabalho. Nunca se amofinou em dar duro para tirar o sustento, seu e de sua família. Mas longe dele de identificar-se com o trabalho alienado. Na sua juventude, não foram poucas as vezes que se manifestou em defesa dos seus companheiros trabalhadores explorados pelos prepostos do capital.

Seus familiares e amigos conheceram, de perto, a sua verve de artista, de contador de histórias, de clarinetista, de “professor pardal”. Um dia ele se via estofador, a desafiar artes e ofícios que lhe eram alheios; outro dia marceneiro, outro, pedreiro. E tudo com muita habilidade e competência. Orgulhava-se de ter “batido” todos os blocos de cimento que erguiam as paredes de sua residência, no interior da Bahia. A sua aposentadoria como servidor público federal do Ministério da Agricultura jamais o colocou de pijama. Continuou a fazer os seus “bicos” até suas forças físicas se exaurirem para qualquer atividade laboral.

Ele foi um raro amigo que por mais de três décadas de convívio jamais tivemos qualquer arranhão na nossa relação de amizade. Uma certa vez ele me provocou, diante de minha, às vezes, compulsividade por adquirir livros: “Minando (assim ele me chamava), eu tenho certeza que você vai morrer sem jamais ter lido todos esses livros que compra”. Na hora, eu lhe dei o troco: “Seu Louro, também tenho certeza que o Sr. jamais vai usar essas ferramentas que adquiriu…” E ambos caímos numa gostosa gargalhada, como dois adolescentes traquinas, pois sabíamos que estávamos sendo sinceros.

Por pura coincidência, dessas enormes que a vida nos apronta, ontem, enquanto editava uma material que gravei com o grupo de samba e chorinho “O Botequim”, do qual o colega Prof. Pedro Abib, da FACED, participa, recebi, através de um dos meus filhos, a notícia de que “Seu” Louro estava muito mal. Que talvez não passasse daquela noite. Passou. Mas às sete da manhã despediu-se da vida… Ainda transtornado com a notícia, tive ainda tempo de incluir num dos vídeos que editava no momento, uma dedicatória a ele. Exatamente a bela composição que a sensibilidade genial de Sérgio Bittencourt dedicou a seu pai, Jacob do Bandolim: “Naquela mesa”.

Quando um amigo se vai, minguamos também um pouquinho com ele. O cineminha da lembrança nos resgata da memória os bons momentos juntos vividos, partilhados, mas também nos traz a consciência da finitude das pessoas e das coisas que amamos, inclusive do ser evanescente que somos, desde o minuto zero da concepção talhados para a morte.

Mais um lugar fica vago na mesa da vida. Eu já sabia que doía tanto, pois tivera outras experiências semelhantes…

Por pura coincidência, o lugar vago, há pouco, era ocupado pelo avô materno dos meus filhos, cujo nome de batismo era Lourival Ferreira dos Santos.

Adeus banho frio! Adeus mantos enrugados! São Pedro e a corte celeste – santos e santas, anjos, arcanjos, querubins e serafins, além dos chefões, Pai, Filho e Espírito Santo, claro! -, devem estar em festa, se existir céu, pois daqui para a frente, chuveiros, ferros de passar, máquinas de lavar e outras tantas tralhas do divino espaço não ficarão jamais quebradas. “Seu” Louro, este mais novo habitante das alturas, por certo, dará um jeitinho nelas…

***

Resta-me abraçar, solidário, os rebentos dessa árvore frondosa que ficam: Zé Paulo, Vaval, Bizeco, Jorge, Lita, Ivone, Zezinho, Toinho. Do mesmo modo, Dona Aninha, irmãos, sobrinhos, netos e bisnetos.

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4 Respostas to “– Quando um amigo se vai…”

  1. Francisco Santana Says:

    Meus sentimentos

  2. Yêda Barbosa Says:

    Através das suas palavras, tod@s que tiverem acesso a esse texto conhecerão, de certa forma, o seu amigo Louro.

    Os Queridos que se vão deixam sempre saudades e as melhores lembranças.

  3. Fernando Reis Says:

    Caro amigo Menandro,
    Fiquei muito emocionado, se é que a Dona Academia, ainda nos permite emoção… com esse “depoimento”, que podemos tranquilamente classificá-lo de de “belíssima crônica”.
    Acho que “Louro”, que não tive a felicidade de conhecê-lo, partiu feliz e realizado, mas, sobretudo, amado de uma forma sincera e muito bonita, como vc demonstrou nesse seu belíssimo texto, ou melhor, crônica.

    Parabéns pela lucidez, sensibilidade e por continuar o Menandro que aprendi a admirar e gostar…

    Fernando Reis (bonita camisa, Fernandinho…)

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